segunda-feira, 5 de março de 2012

Texto: AS DESCONSTRUÇÕES DA CAPOEIRA Gabriel Kafure


A filosofia da capoeiragem

                                                                                                    Gabriel Kafure da Rocha            

Resumo:

Este artigo visa discutir o processo de desconstrução da capoeira maranhense sob o questionamento da hipótese de que no início tudo era uma coisa só: capoeira, tambor  de crioula, frevo, samba etc. Por desconstrução entenderemos primeiramente o tipo de transformação que se inicia no discurso acerca do folguedo ou cultura popular. Logo, um discurso sobre a capoeira  começou a se formar a partir da repercussão dessa arte supostamente vinda da Bahia, com os mestres Bimba e Pastinha. Então podemos dizer que essa palavra mestre é a primeira desconstrução fundamental de toda a capoeira, pois sendo ela uma luta afrobrasileira transmitida pelos escravos vindos de angola e congo, questionamos até que ponto ela era ensinada por supostos "mestres", já que diversas origens rituais foram atribuídas a esta cultura. É de fato é impossível encontrar uma origem específica desta brincadeira popular ou arte marcial, logo a nível do Maranhão analisaremos a história da linhagem de mestres da capoeiragem de Patinho e suas metodologias bem como as ligações com religiosidade, musicalidade e filosofia.

Palavras-Chave: Capoeiragem, Desconstrução, Religiosidade, Corpo, Mestre Pato.



1.    O Mestre:  Corpo, Musica e Religião

“Ser mestre é estar pronto para aprender, não esconder conhecimento e torná-lo em uma leitura ao alcance de todos” (PATINHO apud ALLEX, F. 2012, p. 3)

            Ao mesmo tempo que Pastinha dizia a capoeira tem seus mistérios e segredos, é na figura do mestre que estes se revelam e surpreendem aos observadores muitas vezes na hora da capoeira, em golpes perspicazes que podem levar até a finalização, ou seja, a morte. O herói mítico da capoeira é o Besouro Mangangá, que recentemente teve até um filme em sua homenagem, era um exímio capoeira capaz de vencer vários homens. Dizem que foi parente de um mestre baiano já falecido chamado Cobra Verde. Entretanto, é na figura do Mestre Pastinha que vemos esta humildade de estar pronto para aprender, como diz sua ladainha “grande pequeno sou eu”.

Um dos requisitos para ser mestre é ter uma ladainha de sua autoria, são cantos que iniciam a roda após o “iê”, grito de liberdade  saudação a Exú, o dono do caminho.



“Exú é o mestre da vertigem! (...) a Capoeira Angola desconstrói este mesmo corpo, realçando seu lugar de encruzilhada. Em qualquer dos casos, no entanto, a referência é Exú, pois ele constrói tanto quanto desconstrói o corpo. (...) O corpo, assim, é o processo de subjetivação, por um lado, e da vinculação com os antepassados, por outro.” (OLIVEIRA. 2007. p. 122)



                   Podendo também ser chamado Legbara, Legba, após ser saudado o dono do corpo, o mestre agora junto com o coro entoam mais uma série de iês saudando outros aspectos religiosos do jogo da vida e dos seus jogadores para que comecem os jogos, essa saudação é chamada de chula e tem a forma chamada “Iê viva meu Deus, Iê viva meu mestre, Iê na volta que o mundo deu, Iê aruendê”. Durante os jogos seguem-se as cantigas corridas e quadras, que podem ser revezadas por outros participantes da bateria (os tocadores da roda, composta pelos instrumentos berimbau, agogô, reco-reco, atabaque e pandeiro).

     Essa ligação entre os ritmos e os toques de berimbau se explicita bem através do toque de palmas na hora da roda na casa do mestre patinho. O toque de iúna, que representa o canto de acasalamento desse pássaro, assim também como o ritual fúnebre, é enumerado com uma palma só. O samango, gíria que representa homens preguiçosos ou policiais é enumerado com duas palmas. O toque de angola são três palmas. A cavalaria que representa o toque de fuga contra este batalhão militar são quatro palmas. Assim temos uma idéia de como as palmas representam uma escala de ascensão rítmica que simbolicamente representam o renascimento (iúna) até a fuga e liberdade (cavalaria). É interessante que dentro dessa ordem ritual, algo universal em todas as rodas de capoeira é os jogadores se benzerem com o símbolo da cruz ou a estrela de cinco pontas também chamada de “Salomão” em alguns lugares também se associam a estrela de seis pontas dos judeus ou Rei Davi.

“Esta figura, conhecida como  Cinco Salomão, Estrela de Salomão – que também pode ser o que os capoeiras chamam de jogo de dentro e jogo de fora, entre outros diversos nomes –, surge como dois triângulos interligados que representam tradicionalmente a água e fogo e traduz o jogo e suas transformações: A ginga estabelece a ligação rítmica entre os capoeiras que são as partes ligadas através do jogo com o todo através da roda, onde os instrumentos, cânticos, no jogo de  malícia e de segredo  são os vetores da unidade.” (FERREIRA, Bruno. 2008, p. 8)



Quando os jogadores entram na roda, pedem suas benções e jogam imitando um ao outro, tais como uma experiência do espelho em que contemplam o ser real, aquele que está do outro lado, como um reflexo verdadeiro, assim é uma das formas que começam a se comunicar corporalmente. Ainda nesse sentido filosófico a voz do corpo sadio é a voz mais leal e mais pura, fala do sentido da terra a música e a voz é a invocação do sagrado.

“na própria entrada do jogador na roda quando ele risca no chão a cruz, que para muitos é cristã, mas que como veremos em Fu-Kiau ela representa a cruz congo, simbolizando o cruzamento de duas energias, a horizontal (animal) com a vertical (sagrada), que desenhadas sobre a terra delimitam o espaço mínimo da consagrado para a realização do ritual.” (LIGIÉRO, 2011, p. 131).



                   Os mestres são o espelho dos discípulos, são os principais atores, pessoas a quem o grupo constituidor da ação dramática atribui um alto status perante determinado conjunto de pessoas: “os star groupers são os principais protagonistas, os líderes de facções, os defensores de uma religião, os revolucionariamente de vanguarda” (TURNER, 1974, p. 72). É a representação dos instrutores que tem um poder de ser obedecido pelos que estão no estado liminar. Essa relação de obediência se caracteriza por uma camaradagem, e não por uma estrutura de posições hierárquicas. Esse estado interestrutural é característica do ser transicional, que não está nem lá e nem cá, chave de entendimento do conceito persona liminar.

       O mestre surge de uma admiração popular acerca da maestria de um indíviduo no domínio das artes corporais. O mestre de capoeira figurado muitas vezes no “malandro” pode ter como uma base  epistemológica o conhecido "Mestre-sala" dos blocos de samba, um sujeito bem vestido, provavelmente de branco, que carrega a bandeira ou estandarte do bloco e tem em  seu vestuário uma característica fundamental; o lenço de seda. Este adereço por mais charmoso que fosse, tinha uma função de proteção essencial, já que a seda boa  tinha uma espécie de fibra tão resistente que se uma faca a atingisse não a cortava. Sendo assim, este lenço representava um patuá, um amuleto de proteção do  pescoço do capoeira. Semelhante função a do mestre sala tinham os frevistas que protegiam também as bandas marciais, principalmente as partes da frente, o grupo de  tocadores de tambor, assim também os capoeiras eram e ainda são muitas vezes ogans em terreiros, tinham como função proteger o pai de santo quando incorporado de invasões policiais e etc.

            Na figura do mestre existe uma tênue segmentação da própria classe subalterna em que esse sujeito, por sua prática subversiva de uma malandragem figurada em maltas e gangues, tem a admiração dos próprios criminosos. Relativizando o poder do fraco, ao mesmo tempo que o mestre é obedecido ele é a imagem da possibilidade da desobediência “[...] o poder dos fracos é o poder de obedecer e, por isso mesmo, destruir a opressão pela obediência malandra, oportuna e sagaz” (DA MATTA, 1997, p. 294).

                   O conceito de liminaridade busca entender essas características evidenciadas pelo rito da capoeira, evento no qual uma antiestrutura se opõe a um status quo, abrindo assim possibilidades de transformação social.  Victor Turner fala também do poder dos fracos em termos performático. "Nossa atenção prende-se agora à questão da liminaridade e dos poderes rituais dos fracos" (TURNER, 1974, p. 125). Este aspecto liminar é marca de coisas perigosas nas etapas rituais enfatizadas como de margem.  A performance é uma parte essencial da antropologia da experiência e coletiva, através da religião e da música o mestre mantém um elo que une aos supostos inimigos.

                    



2.    A desconstrução da capoeiragem

 A história da capoeira no maranhão está ligada principalmente a um mestre que foi discípulo de Pastinha, o conhecido Mestre Canjiquinha. Este foi responsável também  por uma desconstrução da capoeira, a chamada capoeira contemporânea, que é uma mistura das modalidades regionais e angola. Canjiquinha ficou famoso por falar que dançava conforme o ritmo do berimbau, se ele tocava rápido era regional e se tocava devagar era angola. Essa era a sua ideologia que ao mesmo tempo reduzia a uma função rítmica as modalidades da capoeira, quando regional e angola eram distintas por muitos outros fatores tais como principalmente a nivelação social, já  que os alunos de Bimba eram "brancos" enquanto os alunos de Pastinha era composta por proletários da região portuária, geralmente estivadores, pessoas que carregavam o peso das cargas que chegavam e embarcavam nos navios. Logo, Canjiquinha mesmo sendo considerado aluno do Mestre Pastinha, era tido como um bastardo.  Já que as diferenças atuais entre a regional e a angola estão principalmente no discurso de que a angola é mais tradicional e que foi essencialmente seguida pelos principais alunos de Pastinha, os mestres João Grande e João Pequeno, este último veio a falecer agora no final de 2011. Considerando então uma capoeira desconstruída, a capoeira baiana no maranhão é trazida pelos discípulos de Canjiquinha, sendo caracterizada pelo termo "capoeiragem".

Capoeiragem Ludovicense é o nome denominado pelos mestres da cidade de São Luís - MA para um jogo que mistura a Capoeira Angola com a Capoeira Regional, uma síntese  das modalidades e estilos de capoeira. Essa miscigenação propiciou a caracterização do jogo maranhense de uma maneira singular, muito semelhante a uma capoeira antiga em que não havia uniformes ou obrigatoriedade do sapato.

Resumidamente a História da capoeira no maranhão se dá quando  em 20 de Fevereiro de 1976 se atribui o reaparecimento da Capoeira no  Maranhão com a visita do Quarteto Aberrê (nome do mestre ex-escravo que fez parte da Academia de Pastinha e que foi o padrinho da Capoeira de Canjiquinha). Este, querteto, composto  entre outros pelos Mestres Canjiquinha e Sapo Bola, foi convidado a permanecer no Maranhão para  o desenvolvimento deste esporte neste Estado.

Mestre Sapo ainda assim não foi o primeiro a surgir no Maranhão, existem relatos que a primeira academia de capoeira em São Luís, chamada de Bantu; liderada por Roberval Serejo, um escafandrista da Marinha que aprendeu capoeira no Rio de Janeiro e que veio para o Maranhão nos anos 60. Roberval aprendeu  capoeira com um mestre Arthur Emídio, baiano de Itabuna. Desde então, a capoeira deixou de ser praticada em frente ao boteco de cachaça e quitanda, e começou a ganhar  novos espaços em escolas, ginásios e academias de ginástica.  A academia Bantu funcionou até 1970, ano em que Roberval Serejo faleceu quando mergulhava a trabalho na  construção do Porto do Itaqui de São Luís. Junto com Roberval se destaca também na academia o Mestre Diniz, aluno do Mestre Catumbi do Rio de Janeiro “um dos expoentes mais expressivos e fomentadores da capoeira em rodas de rua, realizadas em praças da capital.” (ALLEX, F. 2012, p. 3)

Depois de Roberval Serejo, Anselmo Barnabé Rodrigues, o mestre Sapo, passou a ser a maior referência na capoeira angola de  São Luís. O maior discípulo de Sapo foi o Antonio José da Conceição Ramos, atualmente o proprietário Centro Cultural Mestre Patinho, localizado no Centro de São Luís, na Rua São Pantaleão e também fundador da Escola de Capoeira Angola Laborarte na Rua da Jansen Muller. Patinho é o representante de uma capoeira bem mística, que trabalha com cânticos Mina, Baião de Princesa e outros cânticos de descendência iorubá e cambinda.

Vemos então o caráter sintético bem presente na capoeiragem ludovicense. Patinho é no mínimo uma personalidade da boêmia da cidade, uma pessoa irreverente, mas que ao mesmo tempo teve um trabalho sério de capoeira reconhecido em todo o Brasil. Além do que a academia Laborarte é tão antiga quanto os grupos mais tradicionais de Salvador, que tem por volta de 35 anos, entre o GCAP (Grupo de Capoeira Angola Pelourinho) localizado no Forte de Santo Antônio em Salvador.

A história de Patinho se dá de forma que sendo proveniente de uma família de classe média, sofreu preconceito por praticar essa arte de marginais. Sua família ainda tentou afastá-lo dessa vida, mandou que viajasse e estudasse outras coisas. Patinho estudou ginástica olímpica, balé, ainda assim pode ter contato e vivenciar como a capoeira vinha sendo estruturada em outros lugares do Brasil. Com essa visão beneficiada pode organizar uma capoeira mais fina, menos agressiva e mais intelectualizada. Semelhante de certa forma aos preceitos que o próprio Mestre Pastinha teve de formar “pensadores da capoeira”, o Mestre Patinho é um exemplo claro disso.

Com isso entramos no aspecto pensador do Patinho examinando seu discurso oral e problematizando com a máxima escrita nas portas da academia de Pastinha “mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista” apud LIGIÉRO (2011, p. 141). São palavras que para ser compreendidas precisam ser contextualizadas ao fato de que a capoeira é composta de metodologias. Logo, Bimba teve um papel crucial nessa perspectiva, compondo uma séria de movimentos como método básico para o aprendizado da capoeira em poucos meses.

Segundo a monografia de conclusão do curso de Educação física, o Mestre de Capoeira Nelsinho “apresenta os 4 objetivos do Método Desportivo Generalizado e, dentre eles, dois se encaixam no perfil das aulas do Mestre Sapo descrito por seus ex-alunos” BETTI apud BRITTO (2005, p. 41). Logo, desenvolver o gosto pelo belo, pelo esforço e performance e provocar as necessidades de higiene são partes do método de capoeira maranhanse. Nesse sentido performático, são algumas características da metodologia do Mestre Pato, o conhecido jogo em três tempos, três alturas e três velocidades, o qual ele descreve como:

“Então, sempre que eu estou no treinar pra jogar, sem instrumento nenhum, o corpo como instrumento e o cântico: “oh nêga! que vende aí? Vende arroz do maranhão”, gingando, jogando de três, no médio plano, no rasteiro plano, no jogo de dentro, no jogo de fora, cantando inclusive pra facilitar o momento que ele for, porque é o seguinte, no meu ritual de jogo, saiu do jogo foi pro instrumento, não tá com o instrumento na orquestração, não tá tocando instrumento, tá ao redor da roda, tá fazendo o coro, porque isso te mantém aquecido, te mantém, facilita quando você for tocar cantando, porque é um terror quando a agente se desgarra (...) aqui por exemplo não joga ninguém, não joga capoeira aqui se não tiver tocando, se não estiver fazendo o canto, que é pra exatamente manter o equilíbrio do instrumental, o corpo e o canto.” (ANTONIO JOSE DA CONCEIÇÃO RAMOS)



                   Patinho desenvolveu um método baseado numa dinâmica ternária, já que a grande maioria das danças populares ligadas ao Ijexá são ternárias, toque ancestral do qual derivam a maioria dos ritmos afrobrasileiros tais como o samba, afoxé, maculelê, entretanto a música melódica dos berimbaus tocando angola é quaternária. Para o mestre, por serem três  berimbaus, a ginga é um triângulo, os ritmos são lento, médio e rápido e assim por diante. Através de toques universais de berimbau tais como samango, cavalaria, iúna o mestre demonstra como o corpo com seu ritmo ternário se harmoniza com os ritmos quaternários. Então nas palavras Patinho:

“o primeiro instrumento musical foi o corpo né? e meu mais recente, inclusive estou viajando hoje pra trabalhar lá fora, e o tema da minha palestra é “Nosso corpo na capoeiragem”, é um instrumento musical que nós muito pouco sabemos tocar com ele, né? e em contrapartida, na capoeira o primeiro instrumento todo mundo pensa que foi o berimbau, mas a capoeira teve como primeiro instrumento o focar da palma, tem uma diferença grande de bater palma e tocar palma, né? então vou ser bem objetivo contigo pra ti entender mais rápido o que eu querendo dizer, é que a capoeira no lugar que ela tá acontecendo, a tendência dela é a de se integrar com a cultura do lugar, por exemplo no Maranhão a capoeira tende a se atrelar ao cacuriá, ao tambor de crioula que inclusive há uma coisa interessante dessa coisa da música na capoeira relacionada ao tambor de crioula, é que nos temos resquícios de jornais do final da década de trinta pra quarenta é na manifestação em Turiaçu, Caxias e Penalva na Baixada maranhese, da capoeiragem que não tinha essa nomeclatura e sim era chamado de carioca” (ANTONIO JOSÉ DA CONCEIÇÃO RAMOS)



            A pernada carioca é uma evidência da influência deste estado na capoeiragem maranhense. Uma possibilidade remota é a de que os senhores aristocratas consideravam mais barato comprar escravos velhos do Rio de Janeiro do que importá-los da África, mas não existe um estudo mais aprofundado dentro dessa teoria. É certo que o pesquisador Leopoldo Vaz[1] é um dos maiores defensores dessa teoria que relata que Câmara Cascudo  informa que assistiu a uma pernada executada por marinheiros mercantes, no ano de 1954, em Copacabana, Rio de Janeiro. Diziam os marinheiros que era carioca ou baiana. É um dos possíveis nomes da capoeira da capoeira. Enquanto na Bahia se populariza o Batuque, que é uma das referências da capoeira regional, da qual o pai do Mestre Bimba era conhecido como grande batuqueiro. No Rio de Janeiro já se dá o contrário - a preferência é pela pernada, que na verdade passou a ser o meio de defesa e ataque da gente do povo, sendo marcante naquela região a formação de maltas, gangues, que se utilizavam dessa luta pernada. Para Vaz, a pernada chega ao Maranhão pelas fronteiras com o Pará, se referindo a acontecimentos nos anos de 1890, discorrendo que numa patrulha na região de Ver-O-Peso: ’estive em patrulha [...] quando vimos alguns indivíduos pulando jogando carioca." (AE. Secretaria de Segurança Pública. Autos-Crimes, 22/09/1892).







3.    A Ginga e o Bumba Meu Boi



                        “O multifacetado poeta das expressões corporais (...) Patinho mergulhou fundo em outras áreas afins com o objetivo de multiplicar possibilidades e agregar valores que possam se complementar. Conclui curso de dança primitiva, moderna e contemporânea, balé clássico, dança folclórica” (ALLEX, F. 2012, p. 3) Assim, um dos ensinos mais sutis do mestre é a relação da ginga com o caboclo de pena do Bumba-meu-boi. No Pará o pesquisador Luis Augusto Pinheiro Leal defende fortes relação entre o Boi Bumbá e a capoeira.[2]

            A ginga é a base da dança da capoeira, é uma forma de sair de situações difíceis e ao mesmo tempo é um regogizo, uma forma de manter o corpo em movimento. É ao mesmo tempo a entrada e a saída. Patinho diz que na ginga dos brincantes do bumba meu boi, principalmente do próprio boizinho temos uma exemplar forma de ver como o boi pode ser traiçoeiro com seus coices, que é preciso encantá-lo para poder tirar a sua carne, a sua língua.

            Nesse sentido, “para o negro a glorificação do boi, ‘seu companheiro de trabalho, quase seu irmão’ passou a ser expressão de muita mágoa recalcada” nesse “poderoso drama de expressão e quase de revolta popular”, que se chama o Bumba-Meu-Boi.” FREYRE apud BARROSO (p.33)

            Na brincadeira do cavalo marinho, em Pernambuco, é tão clara a relação da capoeira com o folguedo, que a dança do mergulhão é uma roda intrépida com simulação de lutas dois-a-dois com claros golpes de capoeira como a tesoura, o papa-capim e outros movimentos. Assim a ginga é um ponto comum entre estas brincadeiras de bois, reisados, o candomblé e a própria capoeira, como a mãe da ginga. Nesse sentido temos também as variações da ginga, entre elas os currupios, os giros em torno de si, muito comum também na dança do tambor de crioula.

“A ginga é um processo, uma sub-estrutura da consciência social, da psicologia social, própria das sociedades ou culturas coletivistas, que precedem ás sociedades organizadas. (...) a ginga associa-se intimimamente com cerimônias de identificação\separação com a natureza, onde a alucinação coletiva, obtida pelo esgotamento físico comum. (...) pelo sei caráter alucinatório, e consequentemente de potenciação mental, a ginga era um instrumento importante de criação cultural, de obtenção para soluções do grupo” (BARBOSA, 1994, p. 46)



            Por ser uma estratégia sem finalidade, é algo essencial a esse método sem fim da capoeira. Ela é a sina do negro da sociedade, é um símbolo importante da identidade nacional, o gingado do capoeira, o movimento do “é-já e ainda-não” (OLIVEIRA, 2007, p. 89). É de certa forma o movimento faceiro, o estar sempre com um pé atrás, a desconfiança.

             A capoeira é uma alteridade pela ginga, pela dança comum a dois jogadores. É pensar em movimento seduzindo o Outro. É uma ética da estética. O bom jogador se vê pela ginga é de lá que sai toda mandinga, todo feitiço que faz o temor do oponente.



4.    Capoeiragem e os batuques maranhenses

     É bem conhecida  o movimento da pernada da punga dos homens que ocorria e ainda ocorre nas regiões de Rosário, além da movimentação uma série de características também musicais tais  como cantigas entoadas por um improvisador e rebatidas por um coro, e mesmo a idéia de duelo, seja com as palavras, seja com as pernas. Na roda da capoeira vemos ser  narrado o que está sendo jogado, bem como o desafio de jogar, tocar e cantar melhor como característica da maestria de um jogador. Temos assim uma introdução das ligações e semelhanças existentes entre estas artes presentes principalmente no litoral brasileiro e como seus praticantes até hoje se intercalam, já que a figura boêmia do capoeira está sempre presente na cultura popular, disfarçado, implícito ou explícito nas manifestações da cultura. Vamos então em direção ao que será a possível transformação que a capoeira terá neste sentido da unidade e do múltiplo.

Entre algumas musicas já escutadas em rodas de capoeira no maranhão podemos citar:

“caranguejinho tá andando tá andando, a maré ta cheia eu estou esperando”

(Também cantada no baião de princesa da Casa Fanti Ashanti – São Luís – MA)

“Rodou, rodou engenho”

“Boi caminhador, La em casa mamãe diz boi boi caminhador”

(Cantadas em tambor de crioula)

“Lera chorou, lera chorou, eu te disse lera vão te tomar teu amor”

(Cantada em Cacuriá)

“É pedra de responsa, mamãe eu volto na ilha nem que seja montado na onça”

(Música popular cantada por Zeca Baleiro).

5.    Considerações finais

A roda da capoeiragem do Mestre Patinho se inicia com um canto cambinda, que precisa ainda ser escrito de uma maneira mais tradicional, mas que oralmente traduz uma musicalidade que diz “Cê que Cê de kuando andalunda, Cê que Cê de kuando eu andá, Cê que Cê de kaya na kaya na kaya na kayangô”. Segundo o mestre é um canto cambinda que relembra o tempo em que os negros estavam no navio negreiro, tempo que as culturas se fundiram.

Já no fechamento do ritual o mestre faz uma reza que diz “salve rainha favorecida das três missas de natal, que nas nossas frentes ninguém nos persiga que nas nossas costas ninguém nos faça o mal, dom Luís Rei de França venceu a guerra com muita Fé e com muita esperança, por isso hei de vencer, por isso havemos de vencer” 

Semelhante ao que acontece com os terreiros de mina onde histórias de encantados e mitos tais como o Sebastianismo, Dom Luís Rei de França e a “A História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França” (FERRETTI, M. 1989) foram agregados a sua ritualidade, na capoeira as músicas populares vem sendo agregadas a ritualidade local dos grupos. A característica mais interessante no que diz respeito a religiosidade das rodas do mestre Patinho é que consistem num entrecruzamento muito forte entre as culturas dos “mazingas e cambindas e outras artes marciais de angola e você chega a conclusão geral que a capoeira angola começou na áfrica central e viajou para o Brasil (...) a capoeira deve ter evoluído uma vez tendo chegado no Brasil” (DAWSON, 1994, p. 13) .

Essa evolução da capoeira no Brasil tem se dado particularmente no Maranhão de uma maneira eclética, o que se conjuga num ponto de vista interessante contraposto ao tradicionalismo da capoeira baiana.  Então pode até ser que no inicio nem todos os folguedos fossem uma coisa só, mas a capoeira hoje tem um caráter unificador, nas palavras e no ensino do Mestre Patinho.

                 “Uma roda de fundamento em harmonia, não só encanta como eleva, como massageia, espiritualiza, autoafirma a personalidade. É muito triste para as pessoas julgarem o que nunca tiveram idéia do que é” (ALLEX, F. 2012, p. 3) Se dividirmos bem essa frase para examiná-la, podemos ver fortes significações em palavras como espiritualidade, julgamento e mesmo massagem no sentido corpóreo das couraças bioenergéticas que a psicoterapia reichiana dizia. A capoeira pode se constituir numa terapia poderosa no enfretamento das neuroses humanas, relacionando-os com a agressividade no dia-a-dia.  

“em submeter-se à forte massagem bioenergética da capoeira e, sobretudo, de usar a própria agressividade no enfrentamento da agressividade do adversário durante as lutas. (...) Estudando as reações íntimas da capoeira dessas pessoas que temiam a Capoeira, observamos, primeiro, que elas diziam raramente temê-la. Usavam racionalizações do tipo ‘não gosto’, ‘é coisa violenta’, ‘o mestre é autoritário’” (FREIRE, 1995, p. 205).



                   O julgamento da capoeira tem sido a maior luta de todos os antigos mestres, desde a antiga expressão baiana “a barra ta preta” (que se referia a barra das calças pretas dos angoleiros temidos e perigosos) até mesmo ainda hoje a capoeira é tida como uma prática marginal, a sua beleza e sua harmonia são vistas como simples simulação de lutas e pontapés. Talvez a própria mentalidade do povo brasileiro ainda esteja aquém da percepção da dialética corporal ou mesmo de uma hermenêutica ou fenomenologia já que a roda da capoeira é a roda da vida. Por isso talvez se veja que a popularidade e valorização da capoeira ocorre na década de 90 principalmente na Europa, tendo a Alemanha como um dos países  que mais importou mestres de capoeira no mundo. Hoje, vemos a grande disseminação de vídeos de capoeira pela internet[3], tem demonstrando como a observação das expressões corporais se constitui num fundamento importante do observar para aprender. O fato é que por ser uma arte essencialmente da prática de fazer os corpos falarem, só gostam de observar a capoeira aqueles que também costumam  praticá-la.

“Entendemos que ao assistirmos uma dança vemos sujeitos dançantes e vemos formações, treinamentos, concepções de mundo e de homem, concepções de corpo, que inevitavelmente afirmam, confirmam, questionam, negam, enfim, o espírito de um tempo-espaço histórico, sociocultural, ideológico e estético” (GOMES, 2006, p. 247).



                   Na capoeira experimentamos vemos esquecimento, memória e vontade como delimitações do corpo que se se efetiva voltando-se contra o esquecimento de forma que instintos, pulsões são jogadas ali num efeito catártico vencendo a própria temporalidade. Esse sentido filosófico se dá porque a catarse aspira as mais altas virtudes humanas. Dentro de um materialismo nietzschiano, em que muitas vezes entram em confronto a o fim da religiosidade para inicio da luta, se complementam benção (pontapé que não tem nenhum pouco de misericórdia) e a rasteira. O esquecimento se dá de forma que o passado escravizado não tem nada de louvável, é um passado monumental em que o único remédio é o esquecimento. “Somente pelo esquecimento desse mundo metafórico primitivo, (...) o homem se esquece enquanto sujeito” (DELEUZE, 1992, p. 41). Como foi dito no início do artigo, o processo de subjetivação do corpo enquanto vinculação com antepassado é a rememoração do sujeito ancestral, é quando se da incorporação e o transe da capoeira que o sujeito esquece de si, realizando façanhas muitas vezes incompreensíveis até para quem as realizou.  

                         É a tentativa de superar a dualidade cartesiana de corpo e mente, por isso nesse sentido a capoeira é mais que dialética, num sentido nietzschiniano assim como do Mestre Pastinha “O corpo é o grande sistema de razão” (PASTINHA, 1984, p. 20), o fio condutor do pensamento.   

                   “A capoeira não tem propriamente um método. Se o tem, é o da desconstrução. Constrói-se para desconstruir. Ela desconstrói até mesmo suas próprias referências e seu aprendizado, é, na verdade, uma desconstrução de si.” (OLIVEIRA, 2007, p. 176). Assim ao nos debruçamos novamente com a problemática metodológica o principio da capoeira não tem método e por isso a sua desconstrução. A capoeira se inicia na espontaneidade, cada lugar é diferente, cada grupo tem suas características e tem a liberdade de ser ou não ser sem finalidade.























6.                  Referencias Bibliográficas

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BETTI, Mauro. Educação Física e sociedade. São Paulo: Editora Movimento, 1991.



DELEUZE. Conversações. Trad. Peter Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.

MARTINS, Nelson Brito. Uma análise das contribuições de Mestre Sapo para  a  capoeira em São Luís  – São Luís: Monografia (Licenciatura em Educação Física) – Curso de Educação Física, Universidade Federal do Maranhão, 2005.



DAWSON, Charles Daniel. “Capoeira: na excercise of soul. In: Icarus, Visions and Voices of the african diáspora. Nova York: Rosen Publishing Group Inc., n. 13, winter 1994.



DA MATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

FERREIRA, Bruno. Abdução Semiótica na capoeira em São Luís. IN: Revista Cambiassu. São Luís: Departamento de Comunicação Social da UFMA. Ano XVIII, Nº 4 - Janeiro a Dezembro de 2008



FERRETTI, Mundicarmo M. Rocha. “Rei da Turquia, o Ferrabrás de Alexandria? A importância de um Livro na Mitologia do Tambor de Mina”. In: MOURA, C. E. M. de. (Org.), Meu Sinal está no Teu Corpo. Escritos sobre a religião dos orixás. (São Paulo: Edicom/Edusp, 1989), p 202-218.



FREIRE, R. Tesudos de todo o mundo uni-vos. São Paulo: Siciliano, 1995.

FU-KIAU, Bunsenki k.kia. A powerful trio: drumming, singing and dancing. To have one´s eyes opened in bulwa meso, master´s voice of Africa, v. 1, inédito.

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TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e anti-estrutura. Trad. Nancy Campi de Castro. Petrópolis: Vozes, 1974.





[2] Ver LEAL. A política da capoeiragem: a história social da capoeira e do boi-
bumbá no Pará republicano (1888-1906). Salvador: Edufba, 2008.

[3] Ver DIAS, Bruno, pesquisador maranhense com monografia e dissertação de mestrado em construção neste tema.

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